Adultério em Curitiba: Sérgio Moro em nova relação Karnal

O historiador Leandro Karnal confirma nesta semana o que dissemos dele na semana passada: é um homem de ideias fracas

Ao publicarmos a matéria “Leandro Karnal: A encarnação de Stálin” pretendíamos, apenas, mostrar a covardia da esquerda diante da truculência da direita. A direita, sempre que se vê obrigada a retratar alguma conquista do movimento operário ou do socialismo em geral, recorre a intelectuais de esquerda para pintar essas conquistas sobre um fundo sanguinário.

Hoje, quando celebramos 100 anos da Revolução Russa, a mais importante conquista da classe operária e dos povos oprimidos, a imprensa burguesa não faz outra coisa que reportar massacres, inventar genocídios e mencionar tiranos e ditadores.

Encontramos isso por todos os jornais. O que os jornais não dizem — e isso revela o quanto são desonestos — é que a Revolução Russa pôs termo a uma guerra insensata que vitimava pessoas aos milhares; que, durante os primeiros anos da Revolução, a mulher se emancipou na Rússia; que, nesses primeiros anos, mesmo com as fábricas paradas pela falta de insumos, devido à guerra civil, os operários continuavam a receber seus salários. O que ela não diz é que o analfabetismo foi erradicado em todas as repúblicas soviéticas. E, se continuarmos, poderíamos mencionar aqui inúmeras conquistas dos Estados operários nunca alcançadas pelos Estados capitalistas.

Mas os intelectuais são ressentidos. Quando tratam dessas conquistas o fazem timidamente, mas alardeiam aos brados os massacres, os gulagues, os períodos de fome. Falam da tempestade, mas não falam da bonança. Nós, por outro lado, como trotskistas, falamos das duas coisas, mas sabemos quando devemos falar de uma e quando devemos falar de outra. Sobretudo, agora, que muitas dessas conquistas estão para ser extintas, como jornada de trabalho compatível com as forças do ser humano, férias, 13º salário, fundo de garantia e aposentadoria.

Por isso, tratamos de comentar a matéria de Leandro Karnal no Estadão e a de Ruy Fausto, na Piauí. Mas, não esperávamos, em momento algum, que fosse causar tanta polêmica.

Karnal respondeu em sua página no Facebook. Disse que sempre foi atacado pela direita e que, agora, passava a ser atacado pela esquerda. Reagiu a nossa matéria de maneira extremamente defensiva. E, por fim, acomodou-se a uma explicação besta: “Sou defensor do Estado de Direito”. Belíssima justificativa para atacar a Revolução Russa. Para ele, não interessam as conquistas da Revolução, e muito menos, do Estado Soviético. Se, ali, houve alguém como Stálin, o demônio em pessoa, nenhum bem poderia ter sido feito.

Mas aquilo que ele chama de Estado de direito foi conquistado com muito mais sangue do que o sangue que ele afirma ter sido derramado por Stálin. A Revolução Francesa só foi possível graças ao capital acumulado pela burguesia mercantil, e esse capital provinha, sobretudo, do tráfico de escravos. E, depois, quando o nascimento da democracia é mencionado, quando o aniversário da Revolução Francesa é comemorado, que jornal, que intelectual contratado por ele fica concentrado no período do Terror?

E quanto aos Estados Unidos, sempre tratado como país mais democrático do mundo? Quantas vezes vemos mencionar a segregação racial, os massacres perpetrados no Oriente Médio, em nome da democracia? Essa democracia é muito mais sanguinária do que qualquer ditadura. E devemos a ela duas Grandes Guerras e dezenas de milhões de mortos.

E, quando Karnal escreve, a soldo do Estado de S. Paulo, sobre o aniversário da Revolução usando o mesmo argumento gasto da imprensa burguesa, logo desconfiamos de covardia. Mas não era só covardia, era infâmia. Todo aquele que se dobra diante dos argumentos das classes opressoras, que faz coro com ela, é porque é, ainda que no fundo, partidário das ideias dela. É ele, também, o opressor.

E, como o que é sólido desmancha no ar, a máscara do intelectual de esquerda rachou mostrando a verdadeira face daquele que a vestia. No sábado, o próprio Karnal mostrou uma foto sua em um jantar com Sérgio Moro, um dos principais articuladores do golpe de Estado no Brasil. Karnal mostrou o quanto, na verdade, é a favor do estado de direito.

E Karnal se justifica: “O mundo não é linear.” Grande descoberta. Se Olavo de Carvalho, por um lado, ainda pensa que o mundo seja plano, Karnal, o filósofo afirma que ele não é linear. Uma vez provado que não é linear, faltará inda provar que não é plano. E até chegarmos à conclusão de que possui volume, teremos de atravessar toda uma idade-média. E há ainda aqueles que acreditam que Leandro Karnal seja iluminado.

Quando Karnal reproduziu nossa matéria sobre ele, seus seguidores ficaram indignados conosco. Chamavam-no de Mestre, de meu querido Mestre. Babavam diante de sua sapiência. Excitavam-se com suas belas palavras. Mas, agora, depois de vê-lo ao lado de Sérgio Moro, abjuraram. Começou uma debandada. Todos os comentários, e eram milhares deles, repudiavam o Mestre. E o mestre correu para tirar a foto do ar.

O Mestre percebeu que o verdadeiro mestre não era ele. E, para continuar a desenvolver seus “projetos”, curvou-se diante daqueles que lhe pagam o soldo: a TV Cultura, de Geraldo Alkmin, a Bandeirantes, de Saad, e o Estadão, dos Mesquitas. Todos eles inimigos acirrados do estado de direito. Karnal era considerado por essa mesma imprensa como um dos que fazem a cabeça do brasileiro. Mas quem faz a cabeça de Karnal não são os livros que lê, as ideias que lhe inspiram filósofos e poetas. Quem faz a cabeça de Karnal é o Big Brother de George Orwell, aquele que tudo vê.

Karnal descobriu que não era ele o grande Mestre. Mudou de ideia, mudou de partido. Ele, agora, amava o Grande Irmão.

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A greve nacional da Educação e a luta contra o golpe

Está prevista para começar neste dia 15 de março aquela que pode ser a maior e mais importante mobilização nacional dos trabalhadores da Educação – principalmente do ensino básico – das últimas décadas: a greve nacional da Educação.

A greve foi deliberada no maior congresso nacional de trabalhadores de uma só categoria, o Congresso Nacional dos Trabalhadores da Educação, realizado em janeiro passado (com mais de 2,2 mil delegados), organizado pela CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação), filiada à CUT.

A mobilização tem enorme potencial e vem ganhando apoio entre os educadores de todo o País, tendo sido ratificada em assembleias da maioria dos sindicatos estaduais e em centenas de sindicatos municipais de trabalhadores do ensino público, bem como em diversas universidades e até mesmo em alguns setores das redes privadas, onde as ameaças de repressão patronal contra qualquer mobilização e o domínio dos sindicatos por sindicalistas pelegos é marcante. A disposição de luta dos educadores ficou evidente no último dia 8 de março, quando as professoras e trabalhadoras da Educação formaram os maiores contigentes nos atos do Dia Internacional de Luta da Mulher Trabalhadora.

Resgatando a tradição de luta do 8 de Março, dezenas de milhares de trabalhadoras da Educação participaram, juntamente com a minoria masculina da categoria, de assembleias que ratificaram a decisão do Congresso Nacional dos Trabalhadores da Educação de parar as escolas a partir de 15 de março.

A greve é uma clara expressa a revolta da categoria contra os ataques do governo golpistas contra o ensino público e tem com moto nacional a luta contra a “reforma da Previdência” que quer acabar com as aposentadorias de todos os trabalhadores. As trabalhadoras da Educação estão entre os principais alvos do ataque.

Sob a falsa alegação de há um “rombo”  nas contas da Previdência, o governo golpista usa de clara chantagem para que realizar um dos maiores roubos da história do País, assaltando a Previdência para defender os interesses dos banqueiros.

Querem aumentar o tempo mínimo de contribuições para aposentadoria das professoras, de 25 para 49 ano, eliminando até mesmo a diferença do tempo de mínimo entre homens e mulheres). Os professores teriam também que trabalhar 49 anos, para poderem se aposentar (contra os 30 atuais).

A greve presta serviço também contra o “congelamento” nos gastos públicos que ameaça promover uma devastação não só no ensino como em todos os serviços públicos. Os professores reivindicam o cumprimento da “meta 17” do Plano Nacional de Educação (PNE) que estabelece que o salário do professor deve ser equiparado à média dos salários dos profissionais com ensino superior, que hoje supera em mais de 100%  valor pago à esmagadora maioria dos mestres do País, situando-se em torno de R$ 6 mil.

Nos Estados e municípios também estão sendo aprovadas pautas locais contra o “congelamento” dos salários dos professores em quase todo o País, incluindo  não pagamento do piso salarial nacional dos professores de míseros R$ 2.298, em centenas de municípios e alguns estados.

A greve impulsiona também a mobilização de outras categoria e a CUT e milhares de sindicatos anunciam a realização de um dia nacional de luta contra a reforma da Previdência, no dia 15, primeiro dia da paralisação dos educadores, o que pode ser um passo importante no sentido da organização de uma greve geral que enfrente as “reformas” antioperárias e o próprio regime golpista.

Para que essa mobilização seja um passo importante no sentido de impulsionar uma luta unificada de todos s trabalhadores, é preciso  ampliar a agitação e propaganda entre os trabalhadores, nos seus locais de trabalho, de que a ofensiva contra seus direitos (“reformas” da previdência e trabalhista, lei da terceirização-escravidão etc.) só pode ser barrada – de fato – por meio de uma luta unificada pela derrota do golpe de estado (realizado justamente para atacar os trabalhadores e destruir a economia nacional em favor dos interesses do grande capital internacional e seus consorciados no Brasil).

A experiência recente (PEC 55, “reforma” do ensino médio etc.) já compraram que lutas isoladas e parciais não dão de derrotar os ataques do governo e que não é possível ter qualquer ilusão que estas sejam efetivamente barradas pelo congresso nacional golpista.

Assim a greve nacional da Educação e todo o movimento que impulsiona precisa se transformar – para sair vitoriosa – numa luta de todos os trabalhadores contra o golpe, pela anulação do impeachment e pela volta da presidenta derrubada pelos golpistas, para colocar abaixo a atual ofensiva e abrir caminho para novas conquistas.

Para impulsionar esta perspectiva, é preciso construir comandos de greve, de base; lotar as assembleias e realizar atos massivos em todos as principais cidades do País; parar as escolas e mobilizar nas ruas junto com pais e alunos, para derrotar o golpe e sua ofensiva contra o ensino público e contra todo o povo brasileiro.

Dória comprova que direita é burra e inimiga da cultura

Em pouco mais de dois meses de gestão o novo prefeito de São Paulo, o milionário, João Dória, ou “Dólar” para os mais populares está acabando com a cidade de São Paulo em vários setores. A lista de destruição da cidade é grande e já começou.

Já restringiu o acesso aos idosos no transporte popular, aumentou o valor do bilhete único mensal, inúmeros ataques à saúde pública com cortes no fornecimento de remédios nas farmácias populares, corte no serviço de distribuição de leite para crianças e está colocando em liquidação praticamente metade da cidade de São Paulo para o setor privado, Autódromo de Interlagos, Parque do Ibirapuera e Ciclovias estão entre os bens públicos que serão privatizados pelo prefeito do PSDB.

Mas em relação à cultura, o tema desta coluna, Dória está fazendo um ataque de grandes proporções. Em menos de um mês de gestão já anunciou que vai privatizar a enorme rede de bibliotecas públicas da cidade de São Paulo. Ele quer passar para a mão das chamadas Organizações Sociais (OS), lê-se capitalistas interessados em lucrar, mais de 100 bibliotecas. Ao todo são 107 bibliotecas entre temáticas, bibliotecas centrais, de bairro, ônibus biblioteca e bosque de leitura. É uma rede que recebe cerca de quatro milhões de consultas por mês. Emprestam livros gratuitamente. O Centro Cultural São Paulo, um dos mais populares da cidade, também está na mira do prefeito privatizador. O resultado será a demissão em massa de servidores, o sucateamento do serviço público, a restrição popular aos eventos com a instauração de taxas para empréstimos de livros, a cobrança abusiva de ingressos e por aí vai. Claro que tudo sob a fachada das OS que em tese não podem lucrar com o serviço, mas que na prática são empresas privadas ganhando dinheiro público para administrar serviços que a prefeitura deveria gerir, ou seja, repasse de dinheiro para empresários.

Por trás do falso projeto demagogo da “Cidade Linda”, Dória quer calar a cidade. A primeira medida foi a censura e proibição das pichações e grafites na cidade pintando de cinza todas as manifestações públicas em muros e fachadas. A perseguição aos pichadores ainda resultou em repressão violenta por meio da Polícia Militar, prisões e multas abusivas.

Outro projeto de João “Escória” é acabar com o carnaval de rua da cidade. Neste ano já cortou verba para os blocos e escolas de Samba e instaurou uma série de medidas restritivas para a realização do carnaval limitando a maior festa popular do País às 8h da noite em pleno feriado. Também usou da força policial para reprimir foliões. E promete acabar, de início, com o blocos de rua no bairro da Vila Madalena e demais bairros residenciais. Dória quer censurar qualquer manifestação popular, pois sabe que não tem popularidade alguma diante do povo. Basta ver as inúmeras manifestações durante o carnaval contra Dória a e a direita golpista. Foram compostas várias marchinhas contra o prefeito e contra o golpe e milhares de foliões se fantasiaram protestando também.

A política de Dória atacando diretamente a área cultural da maior cidade do Brasil em uma escala nestas proporções comprova que ele não tem interesse algum em desenvolver e popularizar a cultura na cidade. Esta política é o retrato do que é a direita golpista nacional. É uma direita ignorante que não conhece e não aprecia cultura e não tem nenhum interesse em investir nesta área. Não é por acaso que os artistas de todas as áreas são um importante polo de resistência ao golpe de estado no Brasil.

A direita quer deixar a população na miséria mais completa, sem direitos sociais, direitos trabalhistas, serviços públicos básicos como saúde e transporte e ainda quer renegar a dezenas de milhões de pessoas o direito à cultura e educação. É preciso impedir o avanço do golpe e a destruição de todos estes bens conquistados.

8 de março: Dia de defender a primeira mulher eleita presidenta do Brasil

Para este 8 de março houve um chamado para uma “parada” internacional de mulheres. Uma greve geral de mulheres em defesa de seus direitos e reivindicações; para lembrar a violência cotidiana, os salários menores, a desigualdade jurídica…

No Brasil, o Dia Internacional das Mulheres ocorre em plena vigência do golpe de Estado e muitas reivindicações se colocam em evidência para as mulheres.

O desemprego aumentou e as mulheres foram as mais afetadas; o congelamento no investimento em saúde e educação e infraestrutura por 20 anos também afeta mais as mulheres pois são as principais usuárias desses serviços, na medida em que na ausência do amparo estatal são as responsáveis pelos cuidados com crianças e idosos; a reforma trabalhista ameaça a licença-maternidade entre outros direitos; com os golpistas se amplia a ofensiva fascistóide e a tropa de choque da direita avança no Congresso Nacional uma legislação reacionária que pode proibir o aborto em todas as ocasiões, inclusive forçando mulher a levar adiante uma gravidez resultado de estupro; até a reforma da Previdência que quer acabar com a aposentadoria, tirar das mulheres o direito a aposentadoria aos 60 anos e impor o trabalho/contribuição por 49 anos para conseguir aposentadoria integral; isso para citar apenas alguns problemas.

Fica a pergunta: como é possível falar em Dia Internacional da Mulher sem lutar contra o golpe? Esta é uma questão central.

Embora o golpe de Estado e a derrubada de Dilma Rousseff seja o denominador comum, há quem queira sair às ruas neste 8 de março sem falar do golpe ou, no máximo, apenas colocando em pauta questões específicas. É o caso de um setor do movimento de mulheres que elegeu a reforma da Previdência como eixo de luta.

Acontece que não dá pra falar de nenhuma questão democrática com o golpe de Estado. A reforma da Previdência é apenas um dos ataques que o golpe vai impor e lutar contra cada um deles separadamente significa apenas enfraquecer a luta e a mobilização contra o problema de conjunto. Se a esquerda não for pra rua neste 8 de março lutar contra o golpe, não tem nem sentido sair às ruas.

Não dá para falar em defesa dos direitos das mulheres se for ignorado o fato de que a primeira mulher eleita presidenta do Brasil foi exposta, humilhada. Como esquecer aquele adesivo de Dilma, colocado na entrada dos tanques de combustível dos carros de direitistas defensores do impeachment? Inclusive, duas coisas não podem ser negadas. Um aspecto do golpe de Estado, grande parte do que Dilma sofreu, tem características de perseguição por sua condição de mulher; assim como não é possível negar que ela suportou tudo isso de cabeça erguida e com muita dignidade.

Como se não bastasse tudo isso, neste dia se completa 100 do início da Revolução Russa,  na qual a mobilização das mulheres foi o ponto de partida para uma revolução que transformou o mundo e se tornou exemplo não apenas para a luta e organização dos trabalhadores, mas de como a mobilização das mulheres é capaz de despertar todo um movimento e toda a classe trabalhadora.

Este é o primeiro 8 de março, após a derrubada de Dilma, em pleno desenvolvimento do golpe de Estado e este deve ser o centro da luta; derrotar o golpe que está ligado a todos os ataques contra as mulheres e se posicionar radicalmente contra o impeachment da primeira mulher presidenta do Brasil.

“Era o Dia Internacional da Mulher…” Aqui começa a nossa cobertura da Revolução Russa de 1917

Rui Costa Pimenta

Editor do Diário Causa Operária Online

“O dia 23 de janeiro era o Dia Internacional da Mulher.” Assim começa Leon Trótski, na mais importante obra jamais escrita sobre a revolução que realiza no dia de hoje um século da sua realização, a narração dos acontecimentos do primeiro capítulo do ano revolucionário que foi a Revolução de Fevereiro de 1917.

O 23 de fevereiro é, logicamente, o dia 8 de março, no velho calendário russo eliminado pelo governo revolucionário.

A partir de hoje, vamos fazer uma minuciosa “cobertura” deste acontecimento crucial da história da sociedade humana que representa o umbral entre a pré-história e a história verdadeira da humanidade no dizer de Karl Marx.

Cabe falar de “cobertura” de um acontecimento de cem anos atrás? Nosso objetivo não é apenas discutir problemas fundamentais relacionados com a Revolução, mas oferecer todas as informações possíveis, acompanhando o desenvolvimento da própria Revolução. Mereceria menos um acontecimento desta importância? Obviamente, é uma grande ambição e um desafio.

Nosso objetivo é publicar um amplo material sobre a Revolução, sobre os seus atores principais, sobre as questões políticas envolvidas nesta luta revolucionária, revisar as polêmicas mais importantes destes 100 anos.

Muito já se escreveu sobre a Revolução Russa. Nesse sentido, não estamos nos propondo a repetir determinados fatos, mas apresentar a defesa da Revolução por meio dos próprios acontecimentos daquele grandioso acontecimentos, da explicação e da interpretação revolucionária, marxista deste episódio extraordinário da luta de classes.

A importância do estudo da Revolução

1917 é o principal laboratório revolucionário da história humana. Diferentemente das revoluções do passado, como a grande Revolução Francesa de 1789, os revolucionários de 1917, os bolcheviques, atuaram com uma consciência dos problemas políticos até então nunca vista e nunca igualada posteriormente. Para Lênin, a Revolução Russa foi, nem mais nem menos, o “ensaio geral da revolução socialista mundial”. Desta concisa definição podemos extrair múltiplas conclusões.

Em primeiro lugar, que a Revolução Russa era apenas o começo e não o último capítulo da revolução mundial. A propaganda reacionária da burguesia procurou estabelecer que a Revolução Russa e o seu destino eram, não a primeira, mas a última palavra do proletariado mundial para que uma eventual derrota da revolução criasse o ilusionismo da inviabilidade da revolução e do futuro socialista da humanidade. Os marxistas russos consideraram o seu trabalho gigantesco como um trabalho preparatório.

Nossa segunda conclusão decorre da primeira. A importância fundamental da Revolução está em que foi o grande laboratório da revolução mundial, sendo esse o significado fundamental da idéia de “ensaio geral”. Marx indicou que a insurreição é uma arte, ou seja, que era preciso conhecer suas regras para poder realizá-la. Isso significa que a revolução em seu conjunto é uma arte e como tal deve ser dominada em suas leis gerais e aspectos particulares. A Revolução Russa de 1917 revelou com toda a clareza o mecanismo complexo da revolução da nossa época e, de modo mais geral, de toda a luta revolucionária da época. Este é o valor e a atualidade absoluta deste acontecimento centenário. O que temos aqui não é um monumento, mas uma escola da estratégia revolucionária.

Nestes 100 anos, não faltaram os revisionistas e inimigos do marxismo de todas as cores e plumagens para dizer o oposto, ou seja, que a importância da Revolução Russa estaria em muitos aspectos menos no fato de que seria um modelo a ser seguido. Tudo o que é necessário dizer sobre isso é que justamente esta consideração é a pedra de toque de todo o revisionismo após 1917, do stalinismo em diante.

Trótski e a Revolução Russa

Se a Revolução de 1917 é uma escola e Lênin foi o seu mestre indiscutível, o livro de Trótski, História da Revolução Russa é, acima de qualquer dúvida, o seu livro didático fundamental. Assim como Lênin foi o artífice da revolução, Trótski foi o seu grande intérprete. A História é a síntese de uma vasta experiência e uma ampla luta política em defesa desta obra revolucionária. Coube a Trótski mostrar a aplicação da estratégia revolucionária aos acontecimentos cruciais do Século XX: China, Espanha, França, Alemanha. Infelizmente, em meio a derrotas colossais causadas pelos revisionistas dos ensinamentos de 1917, a burocracia stalinista. Tais derrotas, que levaram às mais desastrosas consequências para a humanidade, serviram para completar a comprovação das teses leninistas, agora pela negativa.

Trótski explicou que a obra de Lênin era uma enciclopédia de marxismo. Os oitos meses de luta que conduzem à tomada do poder pelos bolcheviques em 7 de novembro (25 de outubro) é a sua culminação e, em grande medida, sua síntese.

Este é o sentido do trabalho que nos propomos a realizar em torno destes 100 anos. No decorrer do período, o leitor do Diário Causa Operária deverá ter um panorama diversificado que contribua para a compreensão da estratégia revolucionária de Lênin e Trótski e para a organização do partido da classe operária no Brasil e no mundo.

Como a pequena-burguesia vê a classe operária e a revolução, Rui Costa Pimenta

Rui Costa Pimenta

Tive a oportunidade, recentemente, de ouvir uma preleção do deputado do PSOL, Jean Willys sobre a situação política brasileira muito esclarecedora do pensamento da esquerda pequeno-burguesa brasileira e internacional no seu conjunto.

Procurando explicar suas concepções sobre a situação nacional e o golpe de Estado no Brasil, o parlamentar do Rio de Janeiro foi questionado por um dos presentes sobre se havia sido feito um esforço de mobilizar os trabalhadores para derrotar o golpe.

Diante do questionamento, Willys sorriu e assinalou que aquela era uma posição da “velha esquerda”, que hoje há novas forças em ação como os movimentos feministas e LGBT. Acrescentou ainda que os trabalhadores, em muitos casos, batem nas esposas, são machistas e “homofóbicos”.

O dirigente do PSOL deixou claro com estas afirmações que considera que os trabalhadores não são revolucionários – conclui-se não seriam nem mesmo democráticos! – porque não teriam, da maneira como ele os vê, uma mentalidade liberal, ou seja, burguesa, sobre determinados temas, típica de uma parcela insignificante da classe média brasileira, os quais seriam os verdadeiros revolucionários.

Até certo ponto, tendo se declarado diante da audiência como o “único homossexual assumido do Congresso Nacional”, é natural que Jean Willys coloque tais questões como a pedra de toque daquilo que seria ou não revolucionário, do que é importante ou desimportante no que diz respeito à transformação da sociedade brasileira e do mundo. Cada indivíduo, assim como as classes sociais, tende a ver a realidade do ponto de vista dos seus interesses.  Sua posição, no entanto, nada mais é do que a transformação de uma determinada causa, a sua, no centro dos problemas políticos de hoje. É a transformação de uma circunstância em uma concepção universal. O feminismo, o movimento LGBT etc., principalmente do modo como o parlamentar carioca os vê, estão longe de ter a importância que ele lhes atribui e, por consequência, o poder transformador que ele pretende que tenham.

A criação desta verdadeira miragem política é possível porque nem o partido a que pertence o deputado, nem o próprio deputado orientam a sua atividade por meio de um programa político real, ou seja, de uma concepção objetiva, científica, da sociedade em que vivem. Seu ponto de vista é puro impressionismo político: como a classe operária atravessa uma etapa em que não aparece diretamente no primeiro plano da política mundial e do Brasil, ela deixou, para os Jeans Wyllis, de ser um fator já não digamos revolucionário, mas nem mesmo significativo.

O impressionismo conduz à ingenuidade política e a extravagâncias. A classe operária mundial e brasileira são infinitamente mais poderosas que quaisquer movimentos por questões tais como LGBT e feminismos diversos, em geral, uma fração minúscula, como já dissemos da classe média. Muito da força aparente desses movimentos vem diretamente da burguesia e, em particular, da burguesia imperialista, que os usa como uma válvula de escape das pressões sociais no interior das classes médias e um meio importante de cooptação política. A política brutal, genocida e profundamente opressora do imperialismo, inclusive e particularmente para as mulheres e homossexuais, fica encoberta por esta demagogia. As classes médias, como se sabe, são instrumento fundamental na dominação  da classe operária e do povo em geral pelos grandes capitalistas.

No panorama econômico e político da chamada era “neoliberal” e “globalista”, algumas parcelas intelectuais das classes médias viram-se como grande beneficiários. Enquanto que  o capitalismo globalizado paga uma miséria ao operário chinês que monta um computador, os programadores e técnicos de diversa ordem obtêm uma participação muito mais significativa, ainda que insignificante diante dos lucros estratosféricos dos capitalistas. A especulação financeira  apoiou-se em grande medida nas últimas décadas sobre os setores de alta tecnologia, os quais conseguiam abrir novos mercados diante da crise de superprodução que explodiu nos anos de 1970.

A ilusão de força que tais segmentos sociais têm – e que o nosso deputado expressa com grande convicção e otimismo – apoia-se neste fenômeno econômico transitório.

O movimento dos trabalhadores – que viram a contrapartida deste ascenso econômico na forma de um mercado de trabalho “global”, que promoveu a maior desvalorização da mão de obra mundial em toda a história – só pode ver as coisas com extremo pessimismo. O que também é um outro caso de impressionismo.

A ordem global estabelecida pelo Consenso de Washington cai aos pedaços. Este é o principal dado objetivo da situação. Os vitoriosos do Brexit, Trump, Marine le Pen, Geert Wilders e muitos outros representantes da extrema direita dos países imperialistas são a fratura exposta do regime mundial imperialista. A neutralização da classe operária mundial, a completa capitulação da esquerda em todos os seus matizes, e o enorme ônus da política globalista, agora protegida pelo escudo da democracia (Hollande, Obama etc.) conduzem ao crescimento da extrema-direita e ao colapso do sistema econômico em crise aberta desde 2008.

O esquema político que Jean Willys apresenta como sendo o futuro está praticamente morto e é apenas um reflexo do passado. O mundo todo caminha para uma imensa confrontação destes grande maciços sociais que são a classe operária e a burguesia mundiais. É para este desenvolvimento da situação política mundial que devemos nos preparar.

A pergunta do companheiro que queria saber da situação dos sindicatos e da classe operária no Brasil não é apenas pertinente, é, na realidade, a pergunta essencial. O golpe brasileiro demonstra por um lado, o acirramento das condições da luta de classes em um país de primeiro plano na cena mundial, mas, também, serviu para revelar a completa incapacidade da pequena-burguesia esquerda de responder à altura a este acontecimento histórico. Esta incapacidade chegou a um ponto tal que, na sua esmagadora maioria, esta esquerda pequeno-burguesa sequer conseguiu compreender que ocorreu um golpe de Estado no País

O grande fracasso do PT na luta contra o golpe foi o de não conseguir trazer à luta os grandes contingentes da classe operária cujas organizações dirige. Este fracasso tem um sentido político e está diretamente relacionado à predominância dos elementos pequeno-burgueses no aparato partidário. A direção deste aparato sobre a classe operária revela-se um freio absoluto.

A conclusão surge automaticamente na análise. A luta democrática no Brasil (e no mundo) depende fundamentalmente da classe operária e das suas organizações e a tarefa central de todo o próximo período é o trabalho para organizar uma vanguarda da classe operária detrás de uma perspectiva política de classe. O partido operário, ao contrário do que pensam os líderes da esquerda pequeno-burguesa, está na ordem do dia.

Mais um “pai João” nas fileiras do MBL

Ser negro não é garantia que este fato o leva a defender os interesses do povo negro. Ao longo da história de luta da população negra se desenvolveu, por exemplo, uma expressão: “entre Zumbi e pai João”.

Essa expressão serve para denunciar alguém que está em dúvida em levar adiante a luta do povo negro (Zumbi) ou se acanhar, se entregar ao racismo do regime e colaborar com o senhor para a manutenção da opressão do negro, é o “pai João”.

No caso do MBL (Movimento Brasil Livre), a direita resolveu contratar a maior quantidade possível de “pais joão” disponível. Até o momento são dois. O primeiro é mais famoso, o fraudulento Fernando Holiday, que, ao ser questionado sobre algum direito do negro, ele rosna contra em seguida. Saliva, cospe, grita freneticamente contra os direitos do negro.

Um segundo “pai joão” surgiu no horizonte golpista. A nova contratação do MBL é uma angolana que, em publicação impulsionada pelo MBL, tem como título “Angolana Destrói Movimento Negro Vitimista”. Só a chamada do vídeo cheira ao fascismo dos coxinhas que saíram na Paulista, em defesa do golpe de Estado.

O interessante mesmo é o cinismo do MBL e seu esforço em contratar negros para colorir o movimento golpista, movimento que, por sinal, patrocinou manifestações onde os negros só apareceram como trabalhadores, vendedores ambulantes, etc. Ou manifestações majoritariamente brancas, logo em Salvador… Bahia, a África brasileira.

Por outro lado, o conteúdo do vídeo merece algumas palavras. A angolana se utiliza do episódio do turbante para criticar o movimento negro e chegar à conclusão que, na verdade, todos sofrem, que o problema é social, que o movimento é “vitimista”, etc.

O caso do turbante foi o seguinte: uma pessoa negra falou para uma branca que ela não pode usar turbante, sob pena de “apropriação cultural”. É uma acusação besta, policialesca, sem sentido e revela a loucura que a pequena-burguesia pode chegar quando o estômago está mais ou menos forrado.

Porém, isso não quer dizer que o negro não deve reagir da maneira que achar conveniente diante do racismo. É daí que toda reação do negro diante da opressão racial está sendo classificada de “vitimista” pela direita coxinha. Quando mais de 100 pessoas são mortas, decapitadas no sistema penal e o movimento negro protesta, esse protesto é vitimismo. Vitimismo significa falso sofrimento.

O protesto, a manifestação política, é um exemplo democrático que o negro pode fazer, demonstrar politicamente que está insatisfeito. Mas ele pode se cansar da manifestação democrática, arrumar uns facões – pois usar armas pode alarmar a repressão -, e comandar um levante sangrento, como justificadamente o fez, dentre outros milhares de líderes negros, Nat Turner, o Zumbi dos Palmares dos Estados Unidos.

Se a direita está impaciente com os “vitimistas” e insiste em contratar pai joão, é bom aproveitar o quanto for possível.

Amanhã ou depois, o movimento negro e os trabalhadores “perdem a boa”, como se diz, e a direita golpista sentirá saudades dos “vitimistas”; também é preciso ficar claro: o “pai joão”, colaborador do racismo, capacho do patrão, tradicionalmente recebe o mesmo ou pior tratamento que o destinado aos racistas, posto que é um infiltrado, um agente da confusão dentro do movimento, o caso de Fernando Holiday demonstra que não pode mesmo ser diferente.

Esquerda pequeno-burguesa e direita se uniram pela censura no carnaval

Milhões de pessoas tomaram conta das ruas das grandes cidades brasileiras nesse carnaval. Contra toda a campanha da direita golpista que tentou forçar as pessoas a ficarem em casa. No caso de São Paulo, o número de pessoas que saíram às ruas durante todos os dias de folia revelou uma coisa importante sobre o carnaval. A burguesia não consegue controlar essa festa, que é a maior manifestação popular do mundo. E é aí que começa a história desse artigo.

A burguesia e a direita em particular precisam acabar ou no mínimo controlar essa manifestação. A cultura autêntica, expressão espontânea do povo, é em geral inimiga da burguesia. Essa classe social decadente não pode suportar nenhuma tipo de progresso intelectual pois isso coloca em xeque seu domínio contra a maioria da população. Quando se trata de uma manifestação popular tão massiva como é o carnaval, com milhões nas ruas, o problema é ainda mais grave para a burguesia. É preciso controlar, reprimir, censurar.

O golpe e as medidas impopulares que o golpe pretende implantar no País aumentam a necessidade da direita atacar o carnaval. Quanto mais espontâneas e populares são as manifestações culturais do povo, pior para a burguesia e mais ameaçados estão seus planos.

Repressão da direita golpista

Sabendo disso, os golpistas colocaram em marcha uma campanha política contra o carnaval. A maior expressão dessa campanha foi justamente o prefeito de São Paulo, João Doria, o milionário ignorante, que declarou guerra ao carnaval. O tucano golpista colocou às vésperas do carnaval uma série de medidas para atacar os foliões. Restrição de horário para sair das ruas, que na prática era um toque de recolher, restrição da quantidade de pessoas que poderia participar de cada bloco, como se fosse possível controlar o número de pessoas que saem às ruas.

Isso tudo, junto à incessante campanha nos jornais mostrando um cenário caótico na cidade que ninguém viu só a imprensa golpista. Tudo isso não adiantou, o povo lotou as ruas e Doria, junto com seu tutor político, Geraldo Alckmin, colocou a PM e a GCM fascista para expulsar as pessoas das ruas.

Caminhões pipa, escoltados por PMs de motocicleta, passavam jogando água nas ruas forçando as pessoas a saírem. As motos da polícia avançavam sobre os foliões, ameaçando. Se mesmo com tudo isso as pessoas não desocupassem as ruas – e de fato não desocupavam – vinha o spray de pimenta e as bombas de gás. O bom e velho método fascista da PM paulista era colocado em prática contra perigosos foliões carnavalescos.

A imprensa golpista publicou diariamente artigos atacando o carnaval. Dentre essas artigos, um editorial do Estadão do dia 12 (“Conceito torto de cidadania”, O Estado de S. Paulo)  de fevereiro acusava os foliões dos blocos de carnaval de “não terem limites”, aproveitando para defender as medidas de João Dória e do seu secretário de cultura, André Sturm. O jornal golpista elogiava a ação da prefeitura e declarações de Sturm que afirmava coisas como “essa coisa de espontâneo é muito legal, desde que não incomode outras pessoas”.

Diz o Estadão, nos ensinando como o bom cidadão deve se portar no carnaval: “em nome da ‘espontaneidade’ da ‘cultura popular’, rechaçam de antemão todo regramento destinado a dar limites àquilo que chamam de ‘folia’. É o porta-voz da burguesia mais reacionária de São Paulo mostrando todo o seu desprezo pela cultura popular, convocando as autoridades a agirem contra a “falta de limites” desse povo.

A direita fez de tudo para atacar o carnaval, censurou, reprimiu, manipulou. Não foi bem sucedida e o povo tomou as ruas.

Censura da esquerda pequeno-burguesa

Mas há outro aspecto que chamou a atenção no meio da campanha contra o carnaval e que a própria imprensa golpista fez questão de dar destaque em várias edições de seus jornais: a censura às marchinhas e tradicionais sambas carnavalescos. Não por coincidência, na mesma edição do editorial citado acima, o Estadão traz um artigo chamado “Carnaval perde o deboche da marchinha”. Ali, o jornal burguês dá destaque ao “politicamente correto” e aos blocos que decidiram censurar marchinhas de carnaval que na cabeça deles seriam “preconceituosas”.

O que chama a atenção é justamente o destaque que o jornal dá a uma política que é levada adiante principalmente pela esquerda pequeno-burguesa. Durante o carnaval, em vários meios dessa esquerda debateu-se a necessidade de proscrever as marchinhas tradicionais em nome da moralidade. Qual o interesse da direita em dar destaque a esse debate? A resposta está bem clara: abrir um novo flanco, sob a cobertura de uma ideologia aparentemente esquerdista, de ataque ao carnaval.

Cria-se assim um clima moralista, uma espécie de patrulha ideológica que diz o que se pode ou não se pode fazer. Qualquer semelhança com a campanha contra a “falta de limites dos foliões” feita pelo Estadão não é mera coincidência. A direita entra com a repressão, a esquerda pequena-burguesa endossa a política da direita com a censura moral.

Duas faces da política de higienização

Afinal, é preciso impor “limites”, dizem os moralistas da direita e da esquerda. A esquerda pequeno-burguesa contribui assim para a ditadura moral que só pode beneficiar a própria direita fascista. É assim que começam as ditaduras. Alguém (quem?) diz o que é “bom ou ruim”, o que é “belo ou feio” e assim se impõe as arbitrariedades dos puros contra a massa “inculta”, “iletrada”, “preconceituosa”, “machista”, “homofóbica” e mais um caminhão de adjetivos disponíveis à escolha do freguês.

É a ideologia da higienização: o caminhão pipa e as bombas de gás do PSDB se unem com a censura moral da esquerda pequeno-burguesa para impor uma política de limpeza social.

Por fim, é preciso pelo menos uma palavra sobre a ideia de que algumas marchinhas são preconceituosas. Esse tipo de raciocínio só poderia vir de pessoas sem luzes, incapazes de apreciar uma manifestação cultural autêntica. E aí está outra semelhança entre a direita coxinha e a esquerda pequeno-burguesa: o pensamento de classe média que acha ruim tudo aquilo que vem do povo.

Não tenho o objetivo, no presente artigo, de mostrar o total falta de fundamento da ideia de que existem determinadas expressões “corretas” ou “erradas” e que em nome dessa ideia abstrata deveríamos censurar ou proscrever determinadas obras de arte, determinadas palavras, músicas etc. Deixo apenas registrado que se levarmos tal política, como quer um parte da esquerda pequeno-burguesa, corremos o risco de jogar os séculos de progresso cultural e científico da humanidade na lata do lixo, como tentou fazer a inquisição e o nazismo. A arte precisa ser livre, completamente livre e independente, este é um princípio do qual não abrimos mão.

Esquerda pequeno-burguesa e direita se uniram pela censura no carnaval

Milhões de pessoas tomaram conta das ruas das grandes cidades brasileiras nesse carnaval. Contra toda a campanha da direita golpista que tentou forçar as pessoas a ficarem em casa. No caso de São Paulo, o número de pessoas que saíram às ruas durante todos os dias de folia revelou uma coisa importante sobre o carnaval. A burguesia não consegue controlar essa festa, que é a maior manifestação popular do mundo. E é aí que começa a história desse artigo.

A burguesia e a direita em particular precisam acabar ou no mínimo controlar essa manifestação. A cultura autêntica, expressão espontânea do povo, é em geral inimiga da burguesia. Essa classe social decadente não pode suportar nenhuma tipo de progresso intelectual pois isso coloca em xeque seu domínio contra a maioria da população. Quando se trata de uma manifestação popular tão massiva como é o carnaval, com milhões nas ruas, o problema é ainda mais grave para a burguesia. É preciso controlar, reprimir, censurar.

O golpe e as medidas impopulares que o golpe pretende implantar no País aumentam a necessidade da direita atacar o carnaval. Quanto mais espontâneas e populares são as manifestações culturais do povo, pior para a burguesia e mais ameaçados estão seus planos.

Repressão da direita golpista

Sabendo disso, os golpistas colocaram em marcha uma campanha política contra o carnaval. A maior expressão dessa campanha foi justamente o prefeito de São Paulo, João Doria, o milionário ignorante, que declarou guerra ao carnaval. O tucano golpista colocou às vésperas do carnaval uma série de medidas para atacar os foliões. Restrição de horário para sair das ruas, que na prática era um toque de recolher, restrição da quantidade de pessoas que poderia participar de cada bloco, como se fosse possível controlar o número de pessoas que saem às ruas.

Isso tudo, junto à incessante campanha nos jornais mostrando um cenário caótico na cidade que ninguém viu só a imprensa golpista. Tudo isso não adiantou, o povo lotou as ruas e Doria, junto com seu tutor político, Geraldo Alckmin, colocou a PM e a GCM fascista para expulsar as pessoas das ruas.

Caminhões pipa, escoltados por PMs de motocicleta, passavam jogando água nas ruas forçando as pessoas a saírem. As motos da polícia avançavam sobre os foliões, ameaçando. Se mesmo com tudo isso as pessoas não desocupassem as ruas – e de fato não desocupavam – vinha o spray de pimenta e as bombas de gás. O bom e velho método fascista da PM paulista era colocado em prática contra perigosos foliões carnavalescos.

A imprensa golpista publicou diariamente artigos atacando o carnaval. Dentre essas artigos, um editorial do Estadão do dia 12 (“Conceito torto de cidadania”, O Estado de S. Paulo)  de fevereiro acusava os foliões dos blocos de carnaval de “não terem limites”, aproveitando para defender as medidas de João Dória e do seu secretário de cultura, André Sturm. O jornal golpista elogiava a ação da prefeitura e declarações de Sturm que afirmava coisas como “essa coisa de espontâneo é muito legal, desde que não incomode outras pessoas”.

Diz o Estadão, nos ensinando como o bom cidadão deve se portar no carnaval: “em nome da ‘espontaneidade’ da ‘cultura popular’, rechaçam de antemão todo regramento destinado a dar limites àquilo que chamam de ‘folia’. É o porta-voz da burguesia mais reacionária de São Paulo mostrando todo o seu desprezo pela cultura popular, convocando as autoridades a agirem contra a “falta de limites” desse povo.

A direita fez de tudo para atacar o carnaval, censurou, reprimiu, manipulou. Não foi bem sucedida e o povo tomou as ruas.

Censura da esquerda pequeno-burguesa

Mas há outro aspecto que chamou a atenção no meio da campanha contra o carnaval e que a própria imprensa golpista fez questão de dar destaque em várias edições de seus jornais: a censura às marchinhas e tradicionais sambas carnavalescos. Não por coincidência, na mesma edição do editorial citado acima, o Estadão traz um artigo chamado “Carnaval perde o deboche da marchinha”. Ali, o jornal burguês dá destaque ao “politicamente correto” e aos blocos que decidiram censurar marchinhas de carnaval que na cabeça deles seriam “preconceituosas”.

O que chama a atenção é justamente o destaque que o jornal dá a uma política que é levada adiante principalmente pela esquerda pequeno-burguesa. Durante o carnaval, em vários meios dessa esquerda debateu-se a necessidade de proscrever as marchinhas tradicionais em nome da moralidade. Qual o interesse da direita em dar destaque a esse debate? A resposta está bem clara: abrir um novo flanco, sob a cobertura de uma ideologia aparentemente esquerdista, de ataque ao carnaval.

Cria-se assim um clima moralista, uma espécie de patrulha ideológica que diz o que se pode ou não se pode fazer. Qualquer semelhança com a campanha contra a “falta de limites dos foliões” feita pelo Estadão não é mera coincidência. A direita entra com a repressão, a esquerda pequena-burguesa endossa a política da direita com a censura moral.

Duas faces da política de higienização

Afinal, é preciso impor “limites”, dizem os moralistas da direita e da esquerda. A esquerda pequeno-burguesa contribui assim para a ditadura moral que só pode beneficiar a própria direita fascista. É assim que começam as ditaduras. Alguém (quem?) diz o que é “bom ou ruim”, o que é “belo ou feio” e assim se impõe as arbitrariedades dos puros contra a massa “inculta”, “iletrada”, “preconceituosa”, “machista”, “homofóbica” e mais um caminhão de adjetivos disponíveis à escolha do freguês.

É a ideologia da higienização: o caminhão pipa e as bombas de gás do PSDB se unem com a censura moral da esquerda pequeno-burguesa para impor uma política de limpeza social.

Por fim, é preciso pelo menos uma palavra sobre a ideia de que algumas marchinhas são preconceituosas. Esse tipo de raciocínio só poderia vir de pessoas sem luzes, incapazes de apreciar uma manifestação cultural autêntica. E aí está outra semelhança entre a direita coxinha e a esquerda pequeno-burguesa: o pensamento de classe média que acha ruim tudo aquilo que vem do povo.

Não tenho o objetivo, no presente artigo, de mostrar o total falta de fundamento da ideia de que existem determinadas expressões “corretas” ou “erradas” e que em nome dessa ideia abstrata deveríamos censurar ou proscrever determinadas obras de arte, determinadas palavras, músicas etc. Deixo apenas registrado que se levarmos tal política, como quer um parte da esquerda pequeno-burguesa, corremos o risco de jogar os séculos de progresso cultural e científico da humanidade na lata do lixo, como tentou fazer a inquisição e o nazismo. A arte precisa ser livre, completamente livre e independente, este é um princípio do qual não abrimos mão.

Liberdade de mercado; escravidão da mulher

Para os liberais, a liberdade de mercado se identifica com a liberdade em si. O grande problema está na concepção de liberdade.

E a concepção de liberdade dos liberais é semelhante àquela que os animais desfrutam na selva. Liberdade para o leão ser predador e os antílopes serem as presas.

A mulher já começa a competir com desvantagem em relação ao homem. Ela engravida e, historicamente, está presa ao lar e numa posição de submissão em relação ao homem.

Assim, em primeiro lugar, os liberais procuram justificar a diferença salarial entre homens e mulheres com argumentos como: elas trabalham menos, “escolhem” profissões menos perigosas, mal remuneradas e por aí vai.

Nenhuma palavra sobre o fato de que  elas têm uma dupla jornada, no trabalho e em casa e que são de fato as responsáveis por criar os filhos. Nenhuma palavra também sobre o fato de que enquanto uma mulher precisa abrir mão de ter filhos para avançar na carreira, o homem pode confortavelmente ter sua carreira, seus filhos e não ter que se preocupar com o trabalho doméstico. E, obviamente, nada é dito também a respeito de que para manter as coisas desse modo, com a mulher escravizada em casa para que o homem possa continuar dominando os cargos de chefia e comando, as mulheres são estimuladas desde pequenas a querer cuidar de crianças e da casa, e não a desenvolver o intelecto ou explorar o mundo.

Mas as desvantagens reais não contam para os liberais, que procuram explicar tudo pela necessidade do mercado e não das pessoas.

Por que não substituir a pena em relação ao empregador por uma proposta de que a humanidade pare de ter filhos ou de que o homem também possa engravidar? Porque não é realista. O que significa que do ponto de vista liberal a mulher está condenada a ser cidadã de segunda classe para até o fim dos tempos.

Mas o pior é que a doutrina liberal, em especial a neoliberal, não para por aí. Não contentes em justificar a opressão da mulher, levam adiante uma política que, uma vez executada, só pode agravar a situação já bastante desfavorável da mulher na sociedade.

Como João Dória já está fazendo na cidade de São Paulo e como a direita procura fazer em todo o país, os liberais propõem a privatização de todos os serviços que hoje são públicos. Isso significa fim das creches, da escola pública, da saúde gratuita, da licença maternidade e de todos os benefícios que o Estado possa conceder; medicamentos gratuitos, vacinas (por que não?), merenda, e por aí vai. Se Dória já cortou o leite das crianças nas escolas municipais e chegou a suspender as vans que levavam as crianças à escola, ele é capaz de tudo.

E como fica a mulher trabalhadora, que representa a maioria das mulheres do país, sem nenhum auxílio do Estado? A sua situação simplesmente se tornará insustentável. Sem emprego, ou com um emprego mal remunerado, tendo que cuidar da casa e dos filhos sem nenhuma ajuda. E ai dela se abortar! Vai presa e pouco importa se deixou para trás outros três ou quatro filhos desamparados.

O aprofundamento da política neoliberal significa igualmente o aprofundamento da escravidão da mulher.

A única verdadeira liberdade que os tais liberais defendem é a do capitalista para fazer o que bem entender para garantir seu lucro, mesmo que isso implique no sofrimento e escravidão da esmagadora maioria da população.