Espetáculo sobre Cartola estreia nessa quarta no Rio de Janeiro

A partir dessa quarta-feira (15), o Rio de Janeiro receberá um musical que homenageia um dos maiores mestres do samba, Cartola. O espetáculo Cartola – O Mundo é um Moinho será apresentado no Teatro Carlos Gomes, na praça Tiradentes.

A homenagem ao ícone da música nacional estreará, no dia 15, apenas a pessoas convidadas, entre as quais está a artista Alcione. A partir do dia 16 de março até o dia 28 de maio, as portas estarão abertas ao público: de quinta a sábado às 19; e às 17 aos domingos.

O musical foi idealizado pelo ator e produtor Jô Santana e tem a dramaturgia de Arthur Xexéo. A direção e encenação é de Roberto Lage e a direção musical, de Rildo Hora. Nilcemar Nogueira, neta de Cartola, realizou a pesquisa para o projeto. A interpretação será dos atores Flávio Bauraqui, interpretando o Sambista, e Virgínia Rosa, vivendo Dona Zica.

Informações

Cartola – O Mundo é um Moinho

Temporada: de 16 de março até 28 de maio

Onde: Teatro Carlos Gomes

Capacidade: 644 lugares

Endereço: Praça Tiradentes, s/n – Centro, Rio de Janeiro

Quando: de 5ª a domingo

Horário: às quintas, sextas e sábados, 19h; aos domingos, 17h.

Classificação: 12 anos

 

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Velvet Underground & Nico e a Banana de Warhol completam 50 anos

Lançado em 1967, o disco “The Velvet Underground & Nico” completa seus 50 anos em 2017. Um dos álbuns mais influentes na música de todos os tempos. O disco abordava temas polêmicos como o uso de drogas, sadomasoquismo, e desvios sexuais de conduta através de suas letras. Em muito devido a estes temas pouco usuais, foi barrado em diversos estabelecimentos de venda e teve pouco sucesso comercial na época em que foi lançado. 

“Ainda que algumas poucas centenas de pessoas tenham comprado os discos do Velvet Underground, cada uma delas formou uma banda.” Atribuída a Brian Eno, a frase aí exagera, mas não muito. O disco de 1967, produzido por Andy Warhol, influenciou toda uma geração de bandas posteriores a ele, o que no final dos anos 70 foi chamado de Punk Rock. O experimentalismo de Lou Reed, John Cale, Maureen Tucker, Steerling Morrison e, por um breve período, a modelo junkie Nico, influenciou profundamente a estética infratora do punk e do glitter e space rock como David Bowie e Marc Bolan ao noise experimental do Sonic Youth, já quase vinte anos depois.

O aparecimento do primeiro disco do Velvet Uderground está para o surgimento do punk norte-americano, assim como a noite de 4 de julho de 1976, o concerto da jovem banda punk novaiorquina, The Ramones, levou ao London´s Roundhouse futuros membros do Damned, Sex Pistols, The CLASH e mais uma meia dúzia de bandas naquele que seria o o início do punk inglês.

Formado pelo então jovem Lou Reed, John Cale, Sterling Morrison e Maureen Tucker, o Velvet Underground teve o seu nome retirado de uma revista pulp sobre a contracultura sexual. Como empresário, tinha o expoente artista Andy Warhol, que conseguiu transmitir a sua notoriedade para a banda, que começava a despontar como uma interessante revelação musical.

Nico, do título do álbum, era uma cantora alemã que já havia participado de concertos e algumas gravações com o grupo e que, a pedido de Andy, se juntaria ao Velvet para seu primeiro LP. A criatividade do grupo residia, e muito, em John Cale, que se utilizava de diversos métodos e instrumentos alternativos de produção de som como a viola, por exemplo.

Lou Reed, outro grande fã de experimentação, desenvolveu o que se chamaria de Ostrich Guitar. Não se trata de um novo instrumento, mas de uma nova forma de afinar a guitarra, na qual todas as cordas são afinadas na mesma nota, como Ré, por exemplo. Tudo isso ganharia forma no disco.

Gravado em oito horas ao custo irrisório- até para a época- de dois mil dólares o disco é um retrato da Nova York sombria em contraponto com as melodias assobiáveis das bandas hippies predominantes no rock da época.

As músicas do disco: 1. Sunday Morning 2. I’m Waiting for the Man 3. Femme Fatale 4. Venus in Furs 5. Run Run Run 6. All Tomorrow Parties 7. Heroin 8.There She Goes Again 9. I’ll Be Your Mirror 10. The Black Angel Death Song 11. European Son

Adaptação de ‘Les Misérables’, clássico de Victor Hugo, estreia em São Paulo

A nova produção do musical “Os Miseráveis”, baseada no clássico de Victor Hugo, entrará em cartaz em São Paulo a partir de 10 de março, no Teatro Renault.
A peça foi repaginada em 2010 para celebrar os 25 anos de sua produção original. Vencedor de mais de 125 prêmios internacionais e agora o musical mais antigo do mundo, Les Misérables chega em São Paulo para uma temporada até o dia 30 de julho.
Baseado no clássico romance de Victor Hugo, diferentemente de outros de seus romances históricos, a narrativa ocorre em um período da história francesa que o autor testemunhou: a longa trama inicia-se em 1815, e tem seu clímax nos motins de 1832 em Paris.
Victor Hugo não apenas estava vivo durante esses acontecimentos, como chegou a ficar preso por horas em um beco parisiense durante as batalhas dos motins. O autor chegou a declarar que decidiu escrever o romance como forma de homenagear os bravos homens que ele viu morrer nas barricadas.
A trama, ambientada em plena Revolução Francesa, traz uma clássica história de luta. Jean Valjean (papel representado pelo ator Daniel Diges) foi preso por roubar um pão, cumpriu sua pena e, agora, precisa provar para a sociedade que não é um criminoso. Seu maior inimigo é o oficial Javert (interpretado por Nando Pradho), que faz de tudo para impedir a redenção do protagonista.
Elenco principal: Jean Valjean (Daniel Diges) Javert (Nando Pradho) Fantine (Kacau Gomes) Cosette (Clara Verdier) Eponine (Laura Lobo) Marius (Filipe Bragança) Enjolras (Pedro Caetano) Thenardier (Ivan Parente) Madame Thenardier (Andrezza Massei).
Les Misérables: R$25.00 a R$330.00. 10 março a 30 julho, às quintas e sextas, 21h | Sábados, às 16h e 21h | Domingos, às 15h e 20h. Teatro Renault Avenida Brigadeiro Luís Antônio, 411.

O retrato do nordeste, Asa Branca, completa 70 anos

Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, faz jus à sua alcunha. O pernambucano, natural de Exu, migrou ainda jovem do Nordeste para o Sudeste, no Rio de Janeiro, onde construiu sua carreira artística mostrando aos sulistas a cadência do ritmo nordestino.

No dia 3 de março, a música “Asa Branca”, seu maior sucesso, considerada o hino do nordeste, completou 70 anos de sua gravação.

A canção é um dos mais significativos retratos desta região; contando a seca nordestina e a migração do sertanejo em busca de melhorias de vida, que também é obrigado a deixar seu amor, e usa a Asa Branca como metáfora para retratar isto.

Composta em uma tarde de agosto de 1945 no Rio de Janeiro, a melodia chorada, composta pelo Rei do Baião, e seus versos igualmente chorados, escritos por Humberto Teixeira, Asa Branca segue ainda hoje muito atual, principalmente neste momento em que o nordeste passa por uma de suas piores secas.

A história caipira de São Paulo é mostrada em livro

Nos dias de hoje, milhares de pessoas não têm a menor idéia do que é um email, Facebook, Twitter, isso falando de algo muito comum nos grandes centros do mundo. E, por outro lado há outras milhares de pessoas que sabem o que é uma energia elétrica, uma lâmpada e todos os utensílios domésticos que se utiliza de energia elétrica, mas não os possuem por falta de iluminação pública.

Diante desse disparate de realidades, o fotógrafo Pedro Ribeiro, depois de percorrer por cinco anos moradores de uma cidade do interior de São Paulo, fotografando a tudo e a todos, resolveu lançar um livro com essas espetaculares fotografias.

O objetivo deste livro, que se chama Vida Caipira, é mostrar o dia a dia das famílias que vivem sem nenhum meio de tecnologia, nem ao menos uma lâmpada elétrica, o mais próximo da luz, é uma lanterna a pilhas, ou um lampião a gás.

Sendo uma versão reescrita da tese de doutorado de Ribeiro, defendida no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob orientação do professor José Carlos Sebe Bom Meihy, o livro está sendo lançado com o título Vida Caipira, de Pedro Ribeiro, Editora da USP (Edusp).

Vale muito a pena ver o livro e conhecer uma realidade muito comum fora das grandes cidades do Brasil.

Portela conta sua história, denuncia crime ambiental e evidencia derrota da direita no carnaval

Em carnaval marcado pelos protestos contra os golpistas e pela campanha da direita contra  evento, a tradicional escola dos subúrbios cariocas de Oswaldo Cruz e Madureira venceu o principal desfile de escolas de samba do País

Com o enredo “Quem nunca sentiu o corpo arrepiar ao ver esse rio passar”, em alusão ao famoso samba “Foi um Rio que passou em minha vida”, de um dos mais ilustres portelenses, Paulinho da Viola, o Grêmio Recreativo Escola de Samba Portela, fundado em 1923 no bairro de Oswaldo Cruz, zona norte da cidade do Rio de Janeiro, foi a grande campeã do carnaval carioca de 2017.

A Portela é a mais antiga escola de samba em atividade permanente, é a única escola que participou de todos os desfiles de escolas de samba da cidade. Mesmo tendo ficado sem vencer por 33 anos, a Escola é a detentora do maior número de títulos do carnaval carioca (22, no total), seis a mais que a segunda colocada, a Mangueira.

No desfile deste ano, a Portela exaltou, além da sua própria história, os rios importantes do mundo, como o Nilo e o São Francisco e em uma de suas principais alegorias lembrou o crime ambiental de Mariana (MG), provocado pela mineradora Samarco, controlada pela Vale S.A. (privatizada na famigerada era FHC) e a anglo-australiana BHP Billiton, cada uma com 50% das ações da empresa da Vale do Rio Doce, que deixou vazar toneladas de dejetos, no Rio Doce, depois do rompimento de barragem em Bento Rodrigues.

O enredo, segundo anunciou dias antes do desfile o carnavalesco da Escola, Paulo Barros, foi resultado da própria crise capitalista sobre o milionário desfile das escolas de samba do Rio, no qual estima-se que as principais concorrentes tenham gastos de cerca de mais de R$ 5 milhões, cada uma. Segundo Barros, “a Portela tinha acertado um desfile patrocinado, mas o acordo foi rompido por causa da situação econômica. Sobrou para a escola a opção de usar um enredo que tem tudo a ver com sua história”  (Exame, 21⁄02⁄2017).

A crise atingiu em cheio as “escolas de samba S.A”, que perderam patrocinadores ou tiveram verbas reduzidas,  o que criou uma maior dependência das escolas das verbas oriundas da transmissão de TV, controlada pelo monopólio golpista da Rede Globo, que acaba tendo poder de mando sobre quase tudo que diz respeito à organização dos desfiles das escolas de samba no Rio e em São Paulo. As principais escolas de São Paulo, por exemplo, são obrigadas a desfilarem na sexta e sábado para que a Globo possa transmitir desfile do Rio no domingo e segunda-feira. A empresa da família Marinho também determina a quantidade de escolas, horários, caraterísticas plásticas dos desfiles etc.

A Portela sagrou-se campeã, em um ano em que a imprensa procurou dar grande destaque aos acidentes no próprio desfile do Rio, como uma das formas usadas para ocultar totalmente de suas transmissões o verdadeiro mar de protestos ocorridos no carnaval de todo País, contra o governo golpista de Temer e vários de seus apoiadores em capitais importantes como São Paulo, Salvador e Recife.

No próprio Rio, além dos protestos, os monopólios buscaram ocultar não só os gritos de “fora Temer” de dezenas ou centenas de milhares de pessoas, com também o tom crítico adotados por vários blocos e escolas, como a tradicional escola de samba Imperatriz Leopoldinense, que trouxe como enredo a defesa dos índios do Xingú contra os latifundiários e tubarões do agronegócio. Foi atacada pela direita golpista (Bolsonaros, Caiado etc.) e claramente perseguida na transmissão e apuração, apesar do belo desfile que realizou.

Salve a Portela e salve o carnaval, que serviu de expressão, mais uma vez, dos sentimentos populares, da vontade de ser feliz e alegre que o povo brasileiro tem reprimida, pela situação de miséria e opressão que o capitalismo e e seus governos reacionários lhe reservam.

A ofensiva da direita contra esta festa popular (com cortes de verbas, repressão etc.) fracassou em todo o País. Que a vitória na festa do povo se repita na luta contra o golpe e a ofensiva dos golpistas contra os trabalhadores.

Escola de samba Camisa Verde e Branco homenageou João Cândido

A escola de samba Camisa Verde e Branco de São Paulo homenageou o almirante negro João Cândido no desfile de carnaval deste ano, 2017.  Com o samba-enredo: “A Revolta da Chibata. Sonho, coragem e bravura. Minha história: João Cândido, um sonho de liberdade”, a escola fez referência a história do marinheiro negro, líder da Revolta da Chibata.

A revolta da Chibata, ocorrida em 1910, foi liderada por João Cândido. O levante dos mais de 240 marinheiros se deu contra os baixos salários, as péssimas condições de trabalho e o uso de castigos físicos (chibatas) na marinha.

A Revolta da Chibata, de um ponto vista geral, representa um prenúncio das grandes manifestações da classe operária que se darão em diversas etapas no país.

Confira abaixo a letra do samba-enredo da escola. Segue o link para ouvir o samba no youtube.

Orgulhosamente a Verde e Branco vai passar

Abram alas que a minha história eu vou contar

Sou o Almirante Negro, um bravo Feiticeiro,

O Grande Dragão do Mar

Não é ilusão o que vocês veram

A Marinha tinha preconceitos e injustiças

E nos Pampas minha infância foi trocada

Por batalhas imortais, me revoltando

No Navio Minas Gerais

Na batida do tambor ô ô ô

O lamento se escondia la laia } BIS

E na chibata do senhor

O movimento de revolta se expandia

Assim, o tal Catete enganava,

O mundo inteiro com a anistia aclamada

Na Ilha das Cobras a vingança foi voraz

Ignoraram a bandeira da paz

E o sofrimento rumo à Amazônia

Selava destinos, fim da vida ou escravidão

Glória ao nosso povo brasileiro

Meu sonho hoje é verdadeiro

Sou Mestre-sala, João Cândido, o guerreiro

Vou navegar – eu vou eu vou

Vem nesse mar de amor amor } REFRÃO

Sou Barra Funda sou samba no pé

Gira baiana seu gingado tem axé

Daniel Blake não é um Rolling Stone

Recentemente, a revista Exame publicou uma capa com uma foto de Mick Jagger, trazendo o seguinte título: “O que você e ele têm em comum”. Logo abaixo, a revista ponderava, sem dedos: “Talvez não seja a fortuna, nem o rebolado, nem os oito filhos. Mas, assim como Mick Jagger, você terá de trabalhar velhice adentro”. Comparando o destino dos meros mortais com o do notável rolling stone, a revista queria, na verdade, naturalizar ou preencher de glamour a ideia anômala de que a Reforma da Previdência, tal como projetada pelo atual governo golpista, tornou-se inevitável e indiscutível.

A expressão “você terá de trabalhar velhice adentro” certamente subestimava a inteligência do leitor, apresentando o trabalho na velhice como algo normal e inexorável, mas também tentava driblar duas evidências lógicas. Em primeiro lugar, escondia a evidência de que o velho Jagger trabalha simplesmente porque quer, não porque tem de trabalhar. Em segundo lugar, escondia a evidência de que existe um abismo incomputável entre a riqueza do velho Jagger, que trabalhará até quando quiser, e a pobreza dos trabalhadores brasileiros, que terão de trabalhar até a morte segundo a proposta golpista. De fato, com esse malabarismo retórico, a revista procurava adestrar os leitores em torno de suas posições políticas, evitando falar, por exemplo, que o velho Jagger há tempos leva uma vida bastante mansinha.

Um pouco de noção da realidade, contudo, faz bem. Nada semelhante a uma velhice recheada de fortuna, mulheres e carros de luxo poderia ser dito sobre Daniel Blake, o protagonista do último filme de Ken Loach. No filme Eu, Daniel Blake, que ainda está em cartaz em algumas salas de cinema, o protagonista de meia-idade, que é um ser humano de carne e osso como todos nós e não uma estrela vagando no céu das divindades, sofre um ataque cardíaco, sendo desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho. Porém, quando ele tenta receber os auxílios temporários do governo ou viabilizar, enfim, a sua aposentadoria, vê-se envolvido numa saga dolorosa e interminável, esbarrando em todas as engrenagens bizarras da burocracia. A situação de penúria financeira logo se agrava, sendo notáveis as concepções explícitas ou subjacentes dessa sociedade capitalista na qual “o velho”, quando improdutivo, nada mais é do que um ser imprestável.

Nos filmes do cineasta inglês Ken Loach, assim como nos filmes do conterrâneo Mike Leigh, segue-se aquela tradição cinematográfica do neorrealismo inglês, o free cinema, movimento cinematográfico que surgiu na Inglaterra na década de 1960, e que se estabeleceu e se desenvolveu como uma espécie de “resposta artística” para o tenebroso período de desemprego e miséria dos trabalhadores durante o governo Thatcher. Ken Loach foi integrante do movimento  ao lado de Lindsay Anderson e Karol Reiz e se mantém fiel até os dias atuais dando voz aos trabalhadores e aos oprimidos da sociedade capitalista.

A despeito da presença de certos elementos cômicos, tudo nesses filmes está carregado com a força de indignação que expressa o tema preferencial desse cineasta: os efeitos funestos do capitalismo sobre a classe operária dos subúrbios londrinos ou de outras cidades e até de alguns países como em outros filmes do cineasta, como “Terra e Liberdade” e “Pão e Rosas” .

O estilo de cinema de Ken Loach, que é sempre direto e límpido, versado nos modos neorrealistas que lhe aprazem, impedindo, portanto, qualquer confusão a respeito de seus propósitos, talvez tenha atingido certa perfeição neste Eu, Daniel Blake, filme que recebeu o Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016. Evidentemente, o que nele se destaca é mesmo a situação desesperadora do protagonista, apresentada sem rodeios. Para o espectador brasileiro, a situação precária de Daniel Blake funciona, na verdade, como uma figuração da situação precária de todos os trabalhadores brasileiros, cuja velhice já desnudada ou ainda se desnudando, especialmente nesses tempos do escárnio golpista, nada tem em comum com a velhice gloriosa de um célebre rolling stone.

Brazil – terra arrasada

Fim da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo é parte do plano de desmonte da cultura no país

O PSDB, que dirige há décadas o Estado de São Paulo, começa a cumprir as etapas de desmonte do país. É preciso, primeiro, destruir a cultura; tirar os pobres das universidades; transformar o ensino em um instrumento de preparação para o mercado de trabalho e esquecer a formação do indivíduo.

No Estado de São Paulo, encontram-se as melhores orquestras do Brasil. Citamos a Orquestra Sinfônica do Estado (OSESP), a Banda Sinfônica e a Orquestra Jazz-Sinfônica (sem nos esquecermos da Sinfônica de Campinas e da Sinfônica Municipal de São Paulo) — além dos grandes corpos de ballet, como o Ballet Stagium, o Cisne Negro e o Balé da Cidade de São Paulo.

A antiga estação rodoviária de São Paulo, no Bom Retiro, foi demolida para a construção de uma escola de ballet estadual. O projeto foi abandonado. De acordo com o governador, por não ser prioridade e ser o ballet uma atividade da elite.

A criação da Universidade Livre de Música, pelo Maestro Tom Jobim, foi incorporada ao Estado e, durante anos, funcionou como uma escola de excelência. Há alguns anos, foi semiprivatizada e passou a ser administrada pelo grupo religioso Santa Marcelina. O destino da ULM (hoje, EMESP) é ser encerrada em poucos anos.

A maior conquista do governo de São Paulo foi a reorganização da Orquestra Sinfônica do Estado (OSESP), feita pelo Maestro John Neschiling. Durante sua gestão, a orquestra passou a ser referência internacional. A administração da Orquestra recuperou o Theatro São Pedro – um patrimônio arquitetônico que estava transformado em estacionamento de automóveis — e construiu a Sala São Paulo, no antigo centro de comércio do café na Estação Júlio Prestes – outro patrimônio histórico conservado.

Esse projeto foi exportado para o Rio de Janeiro, o que levou a Orquestra Sinfônica Brasileira, também, ao reconhecimento internacional.

Todos esses projetos começam a ruir. O sinal veio com a demissão de John Neschiling da direção do Theatro Municipal de São Paulo, para a qual ele fora contratado durante a gestão de Fernando Haddad. Acusado de corrupção (que é sempre a arma dos covardes), teve de deixar o posto. Avisou, entretanto, que o Theatro Municipal iria acabar por falta de verbas.

E o desmonte começa agora com o fim da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, outra importante orquestra brasileira. A alegação do governo de que não tem verba para manter a orquestra é falsa, uma vez que pretende redirecionar a verba destinada a ela para, segundo ele, o Projeto Guri.

Disse o governo, no entanto, que se a Banda conseguir patrocínio, poderá reagrupar os músicos para eventos especiais. Isso significa que não terão mais salário nem direito à aposentadoria. É um argumento cínico, pois todo o mundo vê a campanha que está sendo feita contra a Lei Rouanet. Sem essa Lei, vai ficar muito difícil para a banda arrumar patrocínio.

E, nessa mesma esteira, seguirão outras orquestras, como a Jazz Sinfônica, já na mira dos destruidores.

Podemos dizer, sem exagero, que o destino da cultura no Brasil será a lata de lixo. Eis as evidências: 1. Um ensino voltado para o trabalho e não mais para a cultura; 2. Fim das leis de incentivo à cultura; 3. Interrupção de obras destinadas à cultura e ao esporte; 3. Desmonte das praças esportivas e dos centros culturais (vide Parque Olímpico e Maracanã); 4. A rigidez da lei de responsabilidade fiscal representará, na prática, o fim de verbas destinadas à cultura; 5. A delimitação de espaços para o carnaval e para o tamanho dos blocos; 6. O desmonte das orquestras brasileiras.

Exposição Anita Malfatti: há 100 anos da exposição que antecedeu a Semana de 22

Há 100 anos, quando Anita Malfatti retornou ao Brasil após estudos em Nova Iorque, talvez ela não imaginasse que sua segunda exposição individual, em dezembro de 1917, se tornaria um dos marcos da arte moderna brasileira. A exposição de Malfatti foi alvo de ataques da burguesia oligárquica contra os modernistas. Monteiro Lobato, escritor já consagrado na época, foi um dos instrumentos dessa direita, escrevendo para o Estado de S. Paulo o artigo “Paranoia ou mistificação” que atacava as obras da jovem pintora. Posteriormente, Lobato se tornaria um aliado dos modernistas.

É por ocasião dos 100 anos dessa exposição, precursora da Semana de Arte Moderna de 1922, que o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM) está organizando a exposição Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna com 70 obras de uma das maiores pintoras brasileiras. A exposição ocorre até o dia 30 de abril no museu que fica no Parque do Ibirapuera.

Para os amantes da boa arte, a exposição e imperdível. O jornal Causa Operária já publicou em seu Caderno Cultural sobre a Semana de Arte Moderna de 1922, uma análise sobre a importância da exposição de Malfatti, em artigo intitulado 1917-1921: A direita declara guerra ao modernismo, que em breve estará disponível também no DCO.

Os ataques da direita oligárquica lançados contra Anita Malfatti foram um dos episódios que levaram os modernistas a evoluirem num processo de crescente radicalização ideológica, política e estética do movimento.

“A violência e a truculência dos ataques de Lobato foram responsáveis por agrupar, pela primeira vez, os modernistas em torno de um objetivo comum: a defesa da nova arte. Fez também eles se darem conta de que havia uma ditadura ideológica estabelecida no país. Os jovens artistas perceberam que, caso quisessem exercer livremente seu trabalho, como experimentadores e renovadores artísticos, teriam necessariamente que derrubar a censura policialesca instaurada pelos oligarcas que controlavam a República Velha e seus policiais entrincheirados em todas as instituições nacionais” (“Os antecedentes da Semana de 22”, in Causa Operária).

Os ataques sofridos por Anita Malfatti juntamente com os ataques sofridos por Mário de Andrade na imprensa em decorrência de sua poesia vanguardista no livro Pauliceia Desvairada foram os antecedentes à Semana de 22 que marcaram a radicalização do movimento modernista.

 

A exposição Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna acontece até o dia 30 de abril no MAM, Parque do Ibirapuera.