Delação, método da ditadura

A delação de Marcelo Odebrecht se transformou, na semana que passou, no novo capítulo do espetáculo golpista, como foi o mensalão e a Lava Jato. O empresário está sendo guardado nas celas da Polícia Federal esperando para ser usado no momento mais conveniente para os golpistas, que orientam cada palavra de sua delação, de modo a atingir os alvos preferencias que nesse momento é o PMDB, muito provavelmente Temer e, logicamente, o PT.

O que revela o espetáculo envolvendo Marcelo Odebrecht é mais uma vez o significado das delações como método de investigação policial. Uma pessoa é trancafiada e pressionada a entregar outras pessoas. Logicamente que, as arbitrariedades do poder Judiciário e da polícia sequer exigem que tais delações sejam verdadeiras. Basta que o delatado seja um alvo conveniente para aqueles que estão incriminando.

Tanto é assim que a Justiça do Distrito Federal arquivou representação contra Otávio Marques Azevedo, ex-presidente da Andrade Gutierrez. Ele era acuado pela defesa da presidenta Dilma Rousseff de mentir em seu depoimento na ação que investiga a chapa Dilma-Temer no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Azevedo declarou ter pago R$ 1 milhão em propina ao PT, mas os advogados de Dilma provaram que a doação de R$ 1 milhão feita pela Andrade Gutierrez à campanha de reeleição em 2014 entrou pela conta de Michel Temer.

O arquivamento foi pedido pelo Ministério Público e acatado pelo juiz federal Marcus Vinicius Reis Bastos no dia 10 de fevereiro. Esse fato, inocentando o empresário que cometeu falso testemunho que, além de tentar incriminar Dilma ainda visava proteger Michel Temer, mostra que as delações são mecanismos seletivos, usados para gerar falsificações com o intuito de atacar determinadas pessoas. O mentiroso foi agraciado com a inocência.

Mas o sistema de delações é ainda mais grave. É um sistema típico das ditaduras mais ferozes. É um método ilegal, sem legitimidade política e nem mesmo Jurídica.

Como na ditadura, uma pessoa é colocada na prisão e submetida a todo o tipo de tortura e pressão até entregar alguém. Na ditadura, as pessoas apanhavam até falar, hoje nem sempre elas apanham, se bem que nas delegacias espalhadas pelo País, a tortura seja um método comum. Mas no caso em questão, se tratando de empresários e políticos burgueses, só a ideia de estar preso já é o suficiente para exercer uma enorme pressão para que saiam delatando a tudo e a todos. Mudam as proporções, mas o método é o mesmo. Entregam qualquer um, independentemente da realidade que há nos depoimentos.

Diante disso, óbvio que da delação vai aparecer o que for conveniente para os golpistas. O resto, deixa pra lá. Mesmo porque, já aconteceram vários casos de delações contra determinados políticos que simplesmente foram desconsideradas. Já no caso dos políticos do PT, de Lula e Dilma, bastou o nome aparecer, não importa em qual circunstância, que isso é revelado aos quatro cantos como sendo a prova do crime.

Se não tem condição de prender, não tem o direito de prender

Há duas semanas, o Supremo Tribunal Federal (STF), um dos pilares do golpe de Estado no País, tomou mais uma decisão absurda que constitui um verdadeiro atentado contra o povo. O Tribunal decidiu que as pessoas que estão presas em condições degradantes, ou seja, em total violação da lei existente no País como é o caso da maioria dos presos, têm o direito de processar os responsáveis pelo encarceramento em 2 mil reais.

Quer dizer, o Estado pode jogar as pessoas numa cela por anos, essas pessoas podem sofrer todo o tipo de humilhação decorrente dessas condições subumanas, correm o risco de morrer, são torturadas etc. Se elas sobreviverem depois de tudo isso, têm o “direito” de conseguir 2 mil reais. É uma das decisões mais absurdas e canalhas que algum tipo de autoridade pública no Brasil já tomou até hoje.

É preciso dizer e denunciar incansavelmente: o regime prisional brasileiro é um problema de lesa humanidade, é um atentado a qualquer direito que se possa atribuir a um ser humano, por mais elementar que seja. As prisões brasileiras são uma forma de tortura, instituída contra o cidadão.

Se essa situação ocorresse em algum País onde o imperialismo procura controlar, os líderes do governo já estariam no Tribunal de a Se isso fosse na Iuguslávai, os líderes já estariam no Tribunal de Haia sendo julgados por crimes contra a humanidade. Isso só não acontece no caso do Brasil pois os responsáveis pelas máquinas de tortura são os aliados do imperialismo.

Se no Brasil as leis fossem minimamente levadas a sério, os responsáveis pelo sistema carcerário no País já estariam no banco dos réus. Não há lei no Brasil que permita que as pessoas sejam tratadas como são tratados os detentos dentro das prisões. O Estado comete um crime gravíssimo contra a população e nada acontece.

A decisão do STF, de garantir uma gorjeta para o cidadão que teve sua vida desgraçada por essa máquina de tortura, é uma resposta à péssima repercussão inclusive internacional da situação carcerária no Brasil.

A questão é muito simples: se o Estado não tem condições de prender uma pessoas e uma situação mínima de dignidade, ele não tem o direito de prender. Não importa se houve ou não crime, o Estado não tem o direito de criar campos de concentração. Apesar de toda a ignorância acumulada no STF, cada vez mais ligado aos setores sociais mais reacionários, dominado pela completa falta de bom senso em relação a problemas comuns, deveria ser simples entender o óbvio sobre a situação carcerária. Qualquer jurista, por mais ignorante e direitista, deveria saber que as autoridades estão cometendo um crime contra o povo.

Não há lei no Brasil que permita que as autoridade pública construam campos de concentração ao estilo de Auschwitz. Não só não é humano, o que é óbvio, como é ilegal. Não existe nenhuma ilegalidade maior do que essa no Brasil. Essa situação não poderia ser mantida. O STF mantém no País uma situação de profunda ilegalidade, que veio à tona com as rebeliões recentes, que deixaram mais de cem mortos no início do ano.

É preciso deixar claro que o STF é o responsável direto por não tomar a única medida juridicamente cabível para resolver o problema: se não tem condições de prender, não tem o direito de prender. Não importa se as pessoas foram condenadas, o STF não pode manter uma situação criminosa contra o cidadão. A única medida é soltar os presos, começando pelos milhares que sequer deveriam estar ali.

A crise no Rio é o modelo nacional dos golpistas

A crise no Rio de Janeiro revelou a profundidade da crise nacional. O fundo do problema é a crise provocada pelo governo direitista do PMDB que colocou em marcha um plano brutal de ataques às condições de vida da população, contra o funcionalismo público, com privatizações e corte de gastos. Seguindo as exigências da própria direita golpista. Essa questão provocou uma situação de rebelião em todo o funcionalismo.

Fica claro que a presença das Forças Armadas está voltada diretamente contra a mobilização popular, ou seja, já não haveria o pretexto das tropas nas ruas para conter uma situação extraordinária, o que revela a realidade da movimentação de tropas feita pelo governo golpista: exercícios militares para conter a eventualidade de uma rebelião popular generalizada.

Os motivos disso são claros. Os golpistas levaram a situação econômica a uma crise extraordinária. Embora atribuam isso ao governo derrubado de Dilma Rousseff, na realidade foi a política recessiva adotada por eles para enfrentar a situação, que está levando o país ao buraco.

A situação no Rio de Janeiro é justamente o melhor exemplo de para onde vai a política golpista. O governo do PMDB no estado procura levar adiante um duro pacote de ajuste mas não consegue se sair bem. A crise só aumenta a cada medida que o governo procura colocar em prática.

A higienização do carnaval

A direita golpista que tomou o poder no País para colocar em prática todo o tipo de medida impopular aproveita o carnaval para atacar também a livre manifestação cultural do povo. Em várias cidades, inclusive tradicionais do carnaval, a política de corte de gastos resultou no cancelamento da festa, em outras, como São Paulo, o prefeito tucano, João Dória, na impossibilidade de cancelar os já tradicionais blocos de rua, procura sufocar a festa através de decretos absurdos como o de proibir a festa a partir das 20 horas ou limitar o número de foliões nas ruas.

Esses ataques, como já dissemos, são motivados por um fator fundamental: para a direita, qualquer manifestação cultural representa um perigo para seu domínio. Se essa manifestação é popular espontânea como o carnaval tudo é ainda mais perigoso. O povo sair às ruas, se expressando livremente em si é uma afronta à política impopular da direita. A cultura é uma arma contra a burguesia pois expressa as tendências coletivas gerais do povo. Para a burguesia só existem duas opções: controlar ou censurar a cultura. Os coisa casos significam sufocar a liberdade de expressão, mudando apenas o grau com que isso é feito.

É nessa mesma tendência que os jornais golpistas vêm dando destaque a uma política que, para o observador mais desatento não seria típica da direita. Trata-se da discussão sobre as marchinhas e sambas considerados “politicamente incorretos”. À primeira vista, esse problema parece ser um assunto para esquerdistas, mas não é assim. O destaque que os jornais mais direitistas estão dando para o debate, sem nenhum motivo maior, é prova disso.

A esquerda pequeno-burguesa como sempre está sendo manipulada para defender uma política direitista, Mais ainda, uma política oficial do imperialismo que procura fazer demagogia com determinados setores considerados oprimidos na sociedade para defender uma política reacionária.

É isso o que está por trás da tentativa de proibir as marchinhas de carnaval. O debate sobre o que é ou não “politicamente correto” é uma polêmica introduzida artificialmente pela burguesia. Qual seria o objetivo? Esconder, detrás de uma ideia aparentemente progressista, uma política que visa a atacar inclusive os setores que supostamente estariam sendo defendidos do “politicamente incorreto”.

A política normal da burguesia é não defender abertamente uma determinada política. Para isso, ela procura coberturas morais, nobres, puras para colocar em prática um plano de ataques. É o caso da censura. Se se considera que é legítimo censurar marchinhas de carnaval por que seriam “ofensivas”, a porta está aberta para que tudo o que seja censurado tudo o que for “ofensivo”. E é justamente a burguesia, mais especificamente a direita, que tem o poder de dar a palavra final sobre o que é ou não é “ofensivo”.

Há ainda outro aspecto importante. A tentativa dos setores de classe média, guiados pela política do imperialismo, de dizer o que pode ou não pode ser dito, é fundamentalmente uma política de higienização no âmbito da cultura. Alguém – quem? – definiu que não se pode cantar marchinhas de carnaval porque elas tem uma linguagem “ofensiva”. Tenta-se, assim, através de um tribunal moral que nem se sabe quem faria parte, dizer o que é “homofóbico”, “machista”, “racista” e dessa maneira “limpar” a cultura.

O que é expressão popular e espontânea se torna objeto de higienização desse tribunal moral. Assim, seria preciso reescrever toda a história do mundo para adequa-la aos gostos e vontades desse “tribunal”. A classe média e, no caso específico, a pequena-burguesia esquerdista universitária, que defende essa política difundida pelo Partido Democrático norte-americano, querem enquadrar o mundo nos seus próprios padrões de “beleza”, “moralidade”; se não for assim, é “ofensa”. Não à toa a classe média é a base social do nazismo, que levou a política da higienização social e cultural à últimas consequências.

Por fim, é importante ainda um último esclarecimento: as críticas feitas contra essas marchinhas e sambas “ofensivos” sequer procedem. A histeria da classe média, a mesma histeria que move os coxinhas a saírem na rua com raiva da cor vermelha, torna os elementos dessa classe pessoas obtusas e ignorantes a ponto de não compreender a letra de uma canção popular ou no mínimo ter a sensibilidade de aceitar que uma manifestação cultural qualquer possa ser legítima.

A política de higienização cultural do carnaval está em total confluência com os ataques que a direita faz ao carnaval. Querem destruir a manifestação cultural do povo. É preciso lutar contra qualquer tipo de censura e repressão no carnaval, que passa por lutar contra a direita golpista.

Imprensa golpista volta à carga contra Lula

Na semana passada, uma pesquisa de opinião organizada pela CNT/MDA apontou que Lula venceria as eleições presidenciais em todos os cenários, no primeiro e no segundo turno. O resultado da pesquisa deixou toda a burguesia de cabelos em pé. Tanto foi assim que os jornais, revistas e noticiários golpistas voltaram à carga contra o ex-presidente.

Acusação de todo voltaram a tomar conta das notícias. Como sempre, tendo em comum uma coisa: as acusações cada vez mais ridículas e forçadas como o destaque dado pela Folha de S. Paulo no último domingo, dia 19, afirmando que o filho caçula de Lula havia recebido “treinamento” da Odebrecht. Não se sabe exatamente onde é que está o crime nisso, mas a imprensa golpista mostra tudo como um enorme escândalo. Na mesma edição e na capa logo abaixo outra notícia para tornar tudo ainda mais ridículo: o Prêmio Folha de Jornalismo de 2016 foi recebido por um jornalista – será mesmo que ele é um jornalista? – que fez reportagem contra Lula “Odebrecht fez obra em sítio ligado a Lula, diz fornecedor”.

Eis aí um exemplo ideal de como forçar a barra.

A mesma edição do jornal ainda traz a coluna de Elio Gaspari “A jararaca está viva e engordou” que revela o real motivo dos ataques a Lula.

No mesmo final de semana, a Istoé trouxe na sua capa o que deve ser uma das mais escandalosas campanhas políticas de que se tem notícia. Um certo sujeito, ex-acionista da Camargo Correa, afirmando ter levado uma “mala de dinheiro para Lula”. No final da própria reportagem, a coisa se mostra falsa. O tal ex-sócio cagueta foi denunciado depois por blogueiros da esquerda como grande coxinha defensor da intervenção militar. Um desses débeis mentais da direita fascista, que a revista transformou em capa.

Matérias atacando Lula não faltaram no Estadão e claro nas organizações Globo. Sobre essa última, vale lembrar a denúncia anônima recebida pelo blogueiro Eduardo Guimarães de um jornalista da Globonews afirmando que estava se preparando uma bateria de ataques contra Lula e Dilma. Isso foi no final de semana anterior. A denúncia parece ter se concretizado.

Lula em primeiro lugar, mas também Dilma e outros petistas, desde que a burguesia decidiu colocar em marcha o golpe, nunca deixou de ser o alvo predileto dessa imprensa venal e golpista. Mas há os momentos em que os ataques ganham corpo, é o caso de agora, impulsionados principalmente pela pesquisa do CNT/MDA.

Por fim, é preciso dizer que embora a burguesia fique assustada com a popularidade de Lula mesmo diante de tantos ataques do monopólio da imprensa, os golpistas não cogitam, por isso mesmo, uma eleição em que vão para uma disputa democrática contra Lula. Os planos da direita parecem bem claros, se Lula não for derrotado antes da eleição pela campanha de calúnias, que seja preso, se não for preso, que seja impedido de disputar a eleição, se disputar que seja colocada em prática a maior fraude da história, se mesmo tudo isso não for suficiente, que seja dado um novo golpe. Nesse sentido, a possibilidade de que sequer haja eleição em 2018 não deve ser descartada por uma esquerda séria.

O pior caminho que a esquerda que se pretende de luta contra o golpe poderia tomar é a ilusão eleitoral. A popularidade eleitoral de Lula não é o suficiente para derrotar a direita. Será preciso um enfrentamento direto, mobilizando os trabalhadores contra o golpe e suas medidas impopulares. Por isso, sem a criação de organismos de luta direta contra os golpistas, pela anulação do impeachment, contra a prisão de Lula, não será possível derrotar o golpe.

As eleições na Câmara e a política parlamentar

As eleições na Câmara dos Deputados se aproximam, ocorrerão dia 2 de fevereiro. Assim sendo, as preocupações se acirram, as peças se movimentam e isso faz com que vários partidos se exponham.

Como já abordado pelo Jornal Causa Operária, não há como apoiar o candidato Rodrigo Maia (DEM), atual presidente com mandato tampão para substitur Eduardo Cunha (PMDB), e ser contra o golpe de Estado. Porém, o PCdoB confirmou o apoio a Maia (DEM) na semana passada. Além disso, setores direitistas do PT também cederam em apoiar o candidato do partido criado pelo Regime Militar.

A situação até se assemelha ao que aconteceu na época da própria criação do Arena, hoje chamado de Partido Democratas (DEM). Em 1964, existiam treze partidos políticos no Brasil. Logo depois do golpe militar, em 1965, é editado o Ato Institucional III, que ilegalizava os partidos exitentes. Muitos dirigentes de partidos de esquerda foram presos, perseguidos ou fugiram.

Assim mesmo, para dar ao Regime um verniz democrático, os militares criaram dois partidos artificiais a Aliança Renovadora Nacional (ARENA atual DEM) e o Movimento da Democratização Brasileira (MDB atual PMDB).

O MDB serviu de abrigo para políticos do antigo Partido Trabalhista do Brasil (PTB) e do Partido Social Democrata (PSD), ou seja, os partidos que haviam eleito João Goulart e sofrido o golpe de 1964. O Partido Comunista Brasileiro (PCB), mesmo com muitos militantes presos, também cedeu parlamentares para o Congresso Nacional feito pelo Regime.

Mais uma vez, os parlamentares que foram eleitos com apoio dos trabalhadores preferem se submeter aos acordos da política parlamentar ao invés de lutar contra o golpe. Algo que poderia até surpreender um leitor desavisado da nossa história.

Além disso, ao se comportar dessa forma, esses setores do PCdoB e do PT que apóiam Maia (DEM), mostram porque a luta contra o golpe não se desenvolveu como poderia. Lembremos que no auge das mobilizações antes do processo de impeachment, esses setores já defendiam a ideia de “diretas já”, uma enorme capitulação frente à política da direita e uma tentativa de manter um acordo com a classe dirigente.

Essa estratégia tem como foco principal salvar a pele dos parlamentares que apoiaram Maia (DEM). Como esse exemplo histórico nos revela, até entrar no DEM ou no seu irmão PMDB alguns parlamentares estariam dispostos a fazer para salvar seus cargos.

O movimento contra o golpe de Estado precisa se organizar apesar das lideranças partidárias e dos caciques parlamentares. É preciso entender que as disputas no parlamento não garantem nenhum direito para o povo, muito menos poderão reverter o golpe de estado. Apenas a mobilização popular que começa nas fábricas, nas favelas e nos guetos e vai para as ruas pode representar os anseios da população explorada.

80 horas de jornada: o plano dos golpistas

Discursando sobre as mudanças que gostaria que o governo golpista colocasse nas leis trabalhistas, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, citou o aumento de 44 para 80 horas de trabalho semanais. Para alguém que trabalha cinco dias por semana, seria o mesmo que trabalhar 16 horas por dia, restando, se muito, tempo para dormir. Isto seria retroceder a antes de 1934, quando foi feita a primeira legislação trabalhista do Brasil, que já previa trabalho de 8 horas por dia.

Esta não foi a primeira declaração contra os direitos trabalhistas de um líder industrial no País. O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), Fernando Rodrigues, afirmou, por sua vez, que não seria necessário horário de almoço, pois o trabalhador poderia comer com uma mão e operar a máquina com a outra.

Não é por acaso que estes industriais façam tais declarações. Faz parte do plano golpista a liquidação de todas as leis trabalhistas, abrindo espaço para a mais pesada exploração contra os trabalhadores. Querem também, neste sentido, colocar os acordos coletivos acima da CLT, de forma que os empresários poderão aos poucos acabarem com as leis, sem necessidade de aprovar projetos no Congresso Nacional.

É para colocar em prática planos como estes, de profundos ataques aos trabalhadores, que o golpe foi dado. O capitalismo está em crise, não consegue se manter e precisa ampliar o nível de exploração de todas as formas possíveis para possibilitar-lhe uma sobrevida.

Esta situação mostra também que não há espaço para qualquer demagogia com a classe operária dentro deste golpe. A situação é diferente de outros períodos em que a burguesia impunha uma ditadura, mas ao mesmo tempo garantia parte dos direitos dos trabalhadores, como foram as ditaduras de Vargas, no Brasil e de Perón, na Argentina.

É aí que está também a principal diferença com o governo de Dilma e os governos do PT em geral, que faziam ataques difusos e ainda procuravam garantir programas sociais.

Impeachment, eleições gerais, parlamentarismo: tudo é golpe

A direita não quer mais o PT no poder. Essa é a base do golpe. Quando a imprensa cartelizada, junto com setores do Judiciário e da Polícia Federal fazem de tudo para derrubar um presidente recém eleito, trata-se de um golpe.

A maior parte da direita adotou o impeachment como fórmula para o golpe, o que é conveniente, pois o processo tem uma aparência legal, constitucional.

Já para parte da esquerda pequeno-burguesa que se colocou do lado golpista, pedir o impeachment não é suficiente, pois ele significaria a subida de Michel Temer, do PMDB, o que é indefensável para a esquerda. Para remediar a situação, formularam um “fora todos” para acompanhar o “fora Dilma”, que de fato é o que está em pauta, e pedem eleições gerais. A formulação é absurda, uma vez que as eleições acabaram de ocorrer e antes mesmo delas, a direita já pedia a saída de Dilma. É como dizer que o resultado da eleição não valeu porque não ganhou quem era desejado pelo setor. Pior ainda é o resultado de tal política. Em eleições gerais ou ganharia novamente o PT ou o PSDB. Pedir eleições gerais é, portanto, pedir que o PSDB entre no governo.

Há ainda uma outra reivindicação golpista, de um setor no momento minoritário; o parlamentarismo. Retirar poderes da presidência, transformando-a em figura meramente decorativa e dar o poder a um primeiro-ministro que, no atual momento, seria um Eduardo Cunha ou outra figura igualmente repudiada pela população.

Esse golpe foi dado inclusive contra João Goulart, que conseguiu reverter esse golpe, poucos anos antes de ele ser efetivamente derrubado pelos militares.

Todas essas saídas são soluções para uma crise criada pela direita que, a serviço do imperialismo, quer retomar o poder a qualquer custo, e está usando desde a imprensa até a máquina estatal para conseguir esse objetivo. Trata-se de um golpe.

Organizar a discussão da 24ª Conferência

 

Nos dias 22, 23 e 24 de abril, o Partido da Causa Operária realizará sua 24ª Conferência Nacional. Diante da atual situação, em que o País se vê ameaçado por um golpe de Estado colocado em marcha pela direita, é fundamental uma análise profunda de tais acontecimentos.

Por isso, o PCO realizará uma conferência que reunirá delegados de vários estados do País para discutir a situação nacional, internacional e um balanço de atividades do partido, necessário para organizar o seu crescimento.

Será analisada a situação política brasileira a partir do fim do regime militar, em 1985, até hoje. A situação também será analisada do ponto de vista internacional, tendo como ponto de partida a crise capitalista que eclodiu em 1974, passando pelo neoliberalismo e a crise dessa política, que veio à tona em 2008 e que causou inúmeros levantes populares, em especial na América Latina. A crise do neoliberalismo está na origem do ascenso dos governos nacionalistas burgueses, inclusive do próprio PT.

Compreender a situação em toda sua profundidade é essencial para avançar e ter uma política correta diante dos acontecimentos de enorme importância que estão se dando no Brasil nesse momento.

Devido à importância da situação política, a discussão será aberta ao público em geral, que poderá se inscrever para participar da conferência e que poderá acompanhar também pela internet a discussão política em transmissão ao vivo.

O debate e esclarecimento das questões colocadas hoje na ordem do dia são importantes para a organização da vanguarda consciente da classe operária e para o avanço da luta popular contra o golpe.

Convidamos todos os interessados a participar da conferência, com o objetivo de estabelecer de maneira firme a política revolucionária a ser seguida daqui para frente.

Ocupar Brasília

No dia 11 de abril, a Comissão formada para analisar o pedido de impeachment pretende votar o texto do relator.

O movimento contra o golpe está se organizando para que pessoas de todo o País estejam presentes em Brasília nesse dia, uma enorme caravana nacional em direção à capital federal.

A luta precisa se expandir. O golpe só pode ser derrotado pela mobilização dos trabalhadores, dos movimentos sociais e de todos que se opõem a ele.

Essa mobilização nacional é importante para mostrar que os trabalhadores não querem o impeachment, não querem um novo golpe de Estado.

Por isso, a próxima etapa dessa luta deve ser tomar Brasília, ocupando-a de ponta a ponta. É preciso estar atento para a possibilidade de que o governador do Distrito Federal, o direitista Rodrigo Rollemberg (PSB), procure impedir os manifestantes de chegarem ao seu destino, tal como fez Geraldo Alckmin no dia da manifestação do dia 18 de março, quando a polícia parou diversos ônibus que se encaminhavam para o ato, atrasando a chegada deles.

É preciso superar esses e outros obstáculos que a direita possa colocar no caminho e ocupar a capital federal contra o impeachment. Os sindicatos devem colocar todos os seus recursos a serviço dessa mobilização. Esses recursos, advindos dos trabalhadores, devem ser utilizados até o último centavo para derrotar o golpe, pois os golpistas são justamente os patrões, as direitas, que querem derrubar Dilma para impor um regime ainda mais duro contra os trabalhadores, retirando direitos e deteriorando suas condições de vida.